terça-feira, 27 de junho de 2017

ENTERRANDO AS CICATRIZES CARIOCAS, de Hugo Costa


O geógrafo Hugo Costa analisou a proposta da Prefeitura do Rio que pretende permitir construções sobre as linhas férreas do Rio de Janeiro, com o intuito de integrar partes de bairros que são ou foram separadas por aquelas intervenções, ideia que também se aplicará a um trecho da Avenida Presidente Vargas. O autor apresenta um breve histórico sobre a formação dessas áreas e questiona alguns aspectos relacionados. Boa leitura.

Urbe CaRioca


Linhas da Central do Brasil em 1898.
Fonte: internet - IBGE

  
ENTERRANDO AS CICATRIZES CARIOCAS

Qual o objetivo da desobstrução dos bairros cariocas causada pelos trilhos do transporte público. Criar Áreas Verdes e Parques Públicos, ou mais uma vez a Prefeitura atenderá ao capital especulativo na cidade do Rio de Janeiro?


Recentemente veio a público, outra vez, a ideia de reconectar dois lados de vários bairros cariocas historicamente cortados por linhas férreas. A divisão derivou-se basicamente de dois modelos: 1. O bairro surgiu após a implantação da linha férrea, crescendo ao seu redor; 2. O bairro existia e, depois de algum tempo, foi atravessado por uma linha férrea que o dividiu.

O primeiro caso é mais comum como, por exemplo, na Zona da Leopoldina: a história destes bairros e da linha férrea é tão intrincada que alguns adotaram o nome da ferrovia que os cortava como referência de toda a região, pois, com base nela, os pequenos povoados ganharam corpo.

O segundo caso corresponde à construção da Linha 2 do Metrô (Estácio / Pavuna) que atravessa alguns bairros do Rio onde, durante a década de 1980, foram erguidos enormes paredões em espaços antes abertos, ignorando-se o modelo aplicado à Linha 1, cujas  vias férreas são subterrâneas.

Independente da origem histórica, fato é que a separação física foi feita, e de forma darwinista cada morador se adaptou à nova barreira geográfica tirando o melhor proveito dos nichos criados. Não é incomum nestes bairros haver um lado com mais comércio e outro predominantemente residencial; ou um lado com mais casas e outro com mais prédios; ou, ainda, haver a tradicional rixa amistosa sobre o que são “o lado de cá” e “o lado de lá”. A cidade se partiu, o corte foi profundo e as cicatrizes se mostram todos os dias às gerações de moradores que se sucedem.

A tentativa de retirar as barreiras geográficas conforme proposto pela Prefeitura não parece derivar de uma tentativa política de uniformizar ambos os lados de cada bairro, ou ter origem em um pleito comum da sociedade – embora haja defensores do projeto, mas do fator econômico mais uma vez sobreposto aos fatores social e urbanístico, algo muito comum na administração carioca independente do seu gestor público.

Em 2015 foi lançado um edital de manifestação de interesse para tornar linhas de trens no município subterrâneas ou elevadas, conforme a viabilidade técnica. Em 2017, em recente viagem a Rússia, o atual prefeito apresentou um grupo russo que deseja investir no projeto de reconexão dos bairros no trecho entre o Maracanã e a Central do Brasil. Não está claro como a ideia de 2015 transformou-se em uma parceria com esse grupo dois anos depois, nem foi divulgado se há outros empresários interessados. Tampouco foi explicado o modo de selecionar os bairros para implantação: por que entre o Maracanã e a Central? Segundo informações, o objetivo é construir um grande Parque Público, mas, por que ao lado da Quinta da Boa Vista? À frente do Centro Administrativo da Prefeitura do Rio? Quais foram os critérios adotados para definir prioridades, as carências de uma região em relação às outras?

Em 2015 havia uma lista de outros bairros pré-selecionados para o projeto, porém, igualmente sem transparência, sem justificativas apresentadas. Um exemplo é a Estação da Penha, no bairro homônimo: a proposta é um criar um Parque sobre os trilhos, a 800 metros do Parque Ary Barroso. Outro exemplo é a Estação Méier - também em bairro homônimo – que fica a 400 metros da grande Praça Jardim do Méier. Curiosamente, estes dois bairros ainda mantêm o ritmo de transações imobiliárias, que parece menos abalado pela crise financeira do país: continua a comercialização de imóveis mais adequados ao perfil das famílias cariocas.

Se o interesse é oferecer novos espaços e novos gabaritos para prédios populares em troca dos Parques, será que mais uma vez a gestão pública servirá a ideais privados? Em dados concretos: se o objetivo deste projeto é aumentar áreas verdes ou criar parques para o lazer da população construídos sobre ou sob os trilhos, não se deve escolher sem critérios claros ou com mera visão empresarial, e sim criar as novas áreas de lazer onde realmente seja necessário.

O Instituto Pereira Passos – IPP, da Prefeitura do Rio, disponibiliza publicamente dados sobre uso de solo, onde é possível conhecer as regiões com menor disponibilidade de áreas verdes e de lazer. Em 2013, por exemplo, a Área de Planejamento 4 – e, nela, a Região Administrativa da Barra da Tijuca -, tinha a maior concentração de áreas de lazer da cidade. Isto explica o fracasso do Parque Olímpico em sua abertura ao público, já que há muitas opções naquela região da cidade.

Não podemos repetir e acumular erros sobre o tema como historicamente tem sido feito no Rio de Janeiro, e sim evoluir com este cenário tão intrinsecamente vinculado a saúde pública. Investir em oásis urbanos e abandonar outras regiões não pode ser a tônica da administração municipal, mesmo sob pretexto financeiro. Nas áreas objeto de interesse imobiliário, benesses têm que ser ofertadas mediante contrapartidas garantidas em áreas de baixo interesse, não aumentando as diferenças atuais, mas, tentando reverte-las.

Nos quadros a seguir dados públicos mostram onde sobram e onde faltam áreas verdes e espaços para lazer nesta cidade-município. Considerando a recomendação internacional de 12m²/pessoa, verifica-se que ainda há muito a fazer pela população em Regiões Administrativas específicas.

Dados e fatos: é com base nisto que uma cidade deve ser gerida. Os dados estão abaixo, não seria interessante inventarem fatos...

Hugo Costa, 20/06/2017

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