quinta-feira, 31 de março de 2016

CASO DA FAZENDA BOTAFOGO - CRIME AO PATRIMÔNIO HISTÓRICO, de Cleydson Garcia


Membro do Grupo S.O.S. Patrimônio do Facebook, estudante de Arquitetura e pesquisador, o autor é apaixonado pela história do Rio de Janeiro.

A partir da pergunta fez a si, e o intrigou – “Como o governo permite levantar um conjunto Minha Casa Minha Vida sem fazer estudo prévio do terreno com a presença de arqueólogos para desenterrar resquícios daquele patrimônio?” – publicou naquela rede social artigo sobre a região conhecida como Fazenda Botafogo, cuja antiga sede – hoje abrangida pelo bairro de Costa Barros, Zona Norte - foi demolida há alguns anos.

Segundo o autor, o passado colonial nos escapa e deforma as interpretações da cidade "Maravilhosa", pois estes arredores - hoje desvalorizados como "subúrbios" - estavam ligados à economia da cana de açúcar, do ouro e do café eram a ligação entre o antigo município das Cortes cariocas, a Serra e todo o Estado do Rio de Janeiro.

Agradecemos a Cleydson Garcia por autorizar a reprodução do seu trabalho. Boa leitura.

Urbe CaRioca

Freguesias do Rio de Janeiro Século XIX
Mapa cedido pela Professora Cleia Schiavo


CASO DA FAZENDA BOTAFOGO - CRIME AO PATRIMÔNIO HISTÓRICO
Programa Minha Casa Minha vida destrói a memória do subúrbio colonial carioca

Cleydson Garcia

Recebi a informação de que a Casa Sede da Fazenda Botafogo já não existe mais: foi demolida há 3 anos e meio!
No Grupo de Estudos do INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DA BAIXADA DE IRAJÁ - IHGBI, do qual faço parte, fizemos o levantamento sobre a região procurando fontes em arquivos, referências bibliográficas (raras, praticamente esgotadas), usamos dados georreferenciais, e buscamos também a memória da população local. Quanto ao recorte geográfico, a Baixada de Irajá - que abrange a antiga Freguesia do mesmo nome – hoje está fragmentada em 39 bairros e compreende também partes de Realengo (Piraquara).
A Fazenda Botafogo era o último patrimônio de alto valor histórico para esta região. Existia desde a segunda metade do século XVIII, e, provavelmente, era remanescente de uma ‘Fazenda e Engenho’ mais primitiva do século XVII. Recebeu este nome por causa do Sr. Botafogo (sobrenome), e a ele foi "doada" em gratificação pelos serviços prestados à Coroa. Confrontava a leste com as terras da Fazenda e Engenho Nossa Senhora da Conceição de Pavuna, o oeste com as terras da Fazenda e Engenho Nossa Senhora de Nazareth, ao Sul com a Fazenda da Boa Esperança, e ao norte com a Freguesia São João Batista de Merity.
O local foi uns dos maiores produtores de açúcar e aguardente da Baixada de Irajá durante alguns períodos. Segundo o Jornal do Comércio de 1839, (disponível na Hemeroteca Digital) o Engenho Botafogo - fábrica de açúcar, rapadura e aguardente -, foi o maior produtor da Freguesia de Irajá e produziu 24 pipas de aguardente naquele ano. Teve diversos proprietários anteriormente, mas, na segunda metade do século XIX, seria da família Coutinho.
Por volta de 1883, aparece em cena o Sr. Luis de Souza da Costa Barros, que seria sobrinho de Ignácio Coutinho e herdaria a casa-sede da fazenda oficialmente em 1887. Anos mais tarde, a herdeira seria sua filha D. Luíza Barros de Sá Freire (nome de casada), que faleceu com 99 anos em 1971. A família ficou com a fazenda até o ano de 1981, quando o governo desapropriou o que restava das terras (66.186 m²).
As terras da Fazenda Botafogo iam até o outro lado da Av. Brasil, onde está o polo industrial (Eternit e outras empresas). O latifúndio abrangia os bairros de Costa Barros, Barros Filho, Coelho Neto (Conjunto Fazenda Botafogo) e partes da Pavuna (à esquerda do metrô), com área superior a 2 milhões de metros quadrados.
Antes da desapropriação, a antiga proprietária vendeu as terras mais afastadas da casa-sede; os morros da Pedreira e da Lagartixa foram repassados para o I.A.P.I na década de 1950 e, poucos anos depois, desse para a Companhia Estadual de Habitação do Estado do Rio de Janeiro - CEHAB-RJ.
Na Secretaria Municipal do Urbanismo - SMU encontram-se alguns projetos de abertura de ruas no alto dos morros da Pedreira e Lagartixa, de 1978. O processo de ocupação da parte alta iniciou-se naquele ano e prosseguiu até 1983, para realojar famílias das favelas demolidas da Zona Sul. Os terrenos da CEHAB sofreram invasão ao longo dos anos 1980 e 1990.
Segundo um antigo morador da região, a comunidade começou a existir, porque um padre da paróquia São Luis - Rei da França abrigou pessoas sem-teto por variados motivos. No início dos anos 1980 a comunidade estava em fase embrionária e os morros ainda estavam pouco ocupados (Observação: Não se trata em absoluto de mostrar desprezo pelos moradores das comunidades, mas, apenas estou de fazer o levantamento histórico na região).
A casa sede ficou abandonada de 1981 até ser demolida em 2012.
A construção que deveria ter permanecido como um marco histórico da ocupação da Zona Norte do Rio de Janeiro, infelizmente, não existe mais, enquanto tantos terrenos vazios, e prédios sem uso que poderiam atender à necessidade de abrigar moradias populares, foram desconsiderados ou vendidos para a iniciativa privada.
A seguir, temos as imagens do satélite extraídas do Google Earth mostrando a evolução do descaso do governo, e mais a imagem cedida pelo antigo morador da fazenda, genro do filho de D. Luiza.
Texto e revisão: Cleydson Garcia
Imagens: Cleydson Garcia

IN MEMORIAN - FAZENDA BOTAFOGO
Endereço: Estrada de Botafogo, próximo ao n°610, Bairro: Costa Barros, Rio de Janeiro.
Descrição das Imagens:

2003: A casa sede estava bem conservada, com poucos invasores. Porém, foi parcialmente destelhada, por uma minoria que vivia em seu entorno.

2006: O terreno estava sendo invadido por dezenas de famílias sem-teto, e a Casa-Sede sofreu graves descaracterizações na parte de cima (telhado), pois começaram a construir "puxadinhos" em cima dela.

2009: A ocupação dos invasores chega ao auge, quase não há espaço no terreno para construir mais barracas de madeira e tijolo.

2011: O último ano da existência da Casa-Sede.

2012: Houve a remoção dessas famílias no local e a destruição do último patrimônio da Baixada de Irajá, que representava as fazendas de açúcar.

2014: Preparação do terreno para a construção dos apartamentos que pertence ao programa: "Minha Casa Minha Vida". Sem sequer contratar arqueólogos especializados em cuidar de rastros de antiguidades.

2015: Parte 1 - Obras do apartamento em andamento. Parte 2 - Obras chegando ao término.

A última imagem é a própria Fazenda Botafogo, pintada por Maria Sá Freire.


2 comentários:

  1. Ficou muito bom!!!!!! Obrigada! Sheila Castello

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  2. Nossa não sabia que meu bairro tinha tantas histórias, cansei de entrar nesse casarão abando nado que ficava no alto do neira e não sabia o tanto de hisória que tinha por ali

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