segunda-feira, 3 de agosto de 2015

O RIO DE JANEIRO À BEIRA D’ÀGUA, de Andréa Redondo (versão em português)


O site The Nature of Cities promove mensalmente mesas redondas virtuais a partir de um tema previamente determinado. Em janeiro/2015 os participantes responderam à seguinte questão:

O texto abaixo integra um conjunto de quinze artigos a respeito de cidades e suas frentes d’água publicados no referido site no dia 06/01. Para acessar todos os textos clique AQUI.

Tendo em vista as recorrentes e recentes discussões sobre a impossibilidade termos a Baía de Guanabara despoluída, bem como a Lagoa Rodrigo de Freitas, as lagoas da Baixada de Jacarepaguá e tantas outras fontes hídricas permanentemente problemáticas, e, em especial, a polêmica dos últimos dias envolvendo a qualidade das águas cariocas frente aos Jogos Olímpicos 2016, a pesquisa encomendada pela AP, e os vários artigos e opiniões na mídia local e internacional, entendemos oportuno repetir o artigo, agora em sua versão para o Português.

Andréa Redondo / Urbe CaRioca





O RIO DE JANEIRO À BEIRA D’ÁGUA

Andréa Albuquerque G. Redondo


O Rio de Janeiro nasceu há 450 anos, cresceu em torno da Baía de Guanabara e de vários morros e desenvolveu-se para Norte e Oeste, ao interior. A partir do Século XIX tomou o rumo Sul, ao longo do litoral. Nosso “Leste” são as águas. No Rio meio ambiente natural e urbano estão juntos.

A orla é densamente ocupada. Na parte norte da baía atividades portuárias e industriais desativadas geraram áreas abandonadas, como ocorreu em muitas cidades. Nos bairros praianos comércio, serviços e habitação se misturam, exceto nas faixas frontais, destinadas a residências, hotéis e restaurantes pelas leis urbanísticas.

Infelizmente a poluição das águas é um problema. A limpeza da magnífica Baía de Guanabara é protelada, praias estão poluídas, as lagoas e rios, assoreados. A ausência de saneamento básico em várias vizinhanças, e o controle público ineficiente, mesmo em ocupações regulares, trazem más consequências do ponto de vista ecológico. Felizmente a lei brasileira impede o uso privativo da orla – pois as frentes marítimas são propriedade da União - salvo exceções como nas áreas militares. Diz-se que as praias são consideradas o espaço mais democrático do Rio!

As ocupações informais ou “favelas” existem em toda a cidade, as consolidadas são bairros populares. A política de habitação no início dos anos 1960 e 1970 fez remover algumas favelas da cobiçada Zona Sul, e transferiu os moradores para conjuntos habitacionais distantes. As que ficavam na Lagoa Rodrigo de Freitas foram substituídas por edifícios valorizados. Nas Zonas Norte e Oeste favelas ainda margeiam lagoas, canais e córregos.

Recuperar o meio ambiente ou regiões urbanas degradadas frente aos fatores sociais inerentes é tarefa complexa. Às vezes é necessário adotar medidas radicais para defender ou (1) a ecologia ou (2) a população.

No primeiro caso é preciso impedir a ocupação urbana predatória – formal ou não - resgatar faixas marginais invadidas, e liberar áreas ambientalmente protegidas, mesmo ao custo de transferir famílias conforme as políticas habitacionais dos anos 1990. No segundo, se retirar as construções for impossível devido à sua consolidação ou extensão, bons projetos urbanísticos poderão reduzir os danos, com benefícios ecológicos para todos.

Em ambas as situações o valor da terra cresce. Evitar o processo de gentrificação causado pelas leis de mercado é um desafio, em especial no Rio onde a pressão do mercado imobiliário é forte e contínua. É dever do setor público (1) nas áreas urbanas onde é adequado construir, incentivar a ocupação diversificada com moradia, comércio e serviços, garantir espaços públicos e (2) nas áreas ambientalmente protegidas buscar apoio da iniciativa privada para mantê-las, ou assumir o orçamento.

Histórias de sucesso dependem do ponto de vista. Na Lagoa Rodrigo de Freitas, um cartão postal do Rio, houve uma troca. Quanto à paisagem, o turismo, para investidores e novos moradores, uma experiência bem sucedida. Entretanto, os conjuntos populares criaram novos bolsões de pobreza sem infraestrutura: para as famílias removidas de seus lares o modelo de transferência foi destrutivo e inapropriado.

A revitalização da região do Porto ainda é imprevisível. O projeto urbano foi conduzido por interesses financeiros e prevê edifícios de 30 a 50 andares. A área recebeu vultosa infraestrutura e tem atraído apenas grandes empreendedores e investidores para prédios comerciais. Sem população residente será outro bairro sem vida.

A proteção para o meio ambiente natural e urbano deve ser apropriada e orientar o planejamento urbano sempre que necessário à Ecologia, independentemente do valor da terra, embora deva haver equilíbrio.

O respeito às questões ambientais deveria ser imposto por códigos de construção e fiscalização severa. Mas, em nome dos Jogos Olímpicos 2016 a ocupação urbana aumentou em áreas livres, alagáveis e em encostas frágeis, impulsionada por índices urbanísticos questionáveis para construções maiores e mais altas – apartamentos e hotéis – além de benefícios fiscais.

A pressão por ocupar áreas marginais (e muitas outras!) com empreendimentos imobiliários encontra apoio governamental. Exemplos recentes são condomínios e um hotel de luxo, e o polêmico Campo de Golfe Olímpico, ambos em áreas protegidas e, pior, o campo eliminou um parque ecológico e suprimiu potenciais avenidas, apesar dos protestos de ambientalistas, urbanistas e juristas.



A área verde no mapa é reserva natural, mas o zoneamento foi modificado para permitir um campo de golfe (e um grande projeto imobiliário, o real propósito) em processo questionável. Verdes claro e escuro perfazem a Área de Proteção Ambiental Marapendi, em volta da Lagoa de Marapendi.


Há 200 anos o Rio dava as costas à água, o banho de mar era medicinal. Há 100 anos morros históricos desmontados deram lugar a esplanadas densamente ocupadas e serviram para aterrar as águas; montanhas de pedra eram matéria-prima para construções, pavimentação e molhes. Mas, também houve ações positivas no passado: no século XIX Imperial a Floresta da Tijuca, devastada por lavouras de café, foi replantada. No século XX o governo proibiu as pedreiras; as políticas de preservação do patrimônio cultural e ambiental foram reforçadas. Evitar o retrocesso é imperativo.

Sem sua natureza o Rio não seria Paisagem Urbana Histórica. Mesmo na difícil situação atual, o Rio de Janeiro ainda é a Cidade Maravilhosa!

4 comentários:

  1. Excelente reflexão Andréa, parabéns !!!!

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    1. Obrigada, Sydnei. Um grande abraço. O blog está à disposição para receber artigos seus!

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  2. Trata-se de um artigo muito bom e oportuno. Neste momento em que as atenções de ambientalistas, urbanistas e da imprensa mundial se inquietam com o grau de poluição encontrada nas aguas, que seriamente ameaçam a realização das provas olimpicas programadas para a Lagoa Rodrigo de Freitas, Praia de Copacabana e Baía da Guanabara. Infelizmente os investimentos realizados no legado olimpico do Rio foram pifios, se comparados com os jogos olimpicos de Londres 2012--onde para cada 1 libra investida em infraestrutura 0.75 foram explicitamente para o legado, definido com o horizonte de 2030! Os legados dos jogos de Londres 2012 incluem, a saber: promoção de pratica de esportes, socio-ambiental, desenvolvimento economico, habitacional, desenvolvimento urbano, e sistemas de mobilidade de alta eficiencia. Cada categoria deste conjunto de legado foi planejado de acordo com criterios de sustentabilidade e metas estrategicas, e medidos atraves de indicadores de impacto.

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    1. Obrigada pelo comentário, caro Ephim. Os dados que você nos traz são importantes. Aumenta a decepção devido à oportunidade única que tivemos e que, até aqui, parece desperdiçada. Um grande abraço.

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