quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Artigo: O CINEMA E AS ORQUÍDEAS, de Cleia Schiavo Weyrauch


Leblon, Rio de Janeiro - Foto: O Globo


Publicamos várias análises sobre o ocaso e o caso Cinema Leblon. Para conhece-los, basta usar os marcadores “Cinemas”, “Leblon”, “Demolição”, “Tombamento”, “Patrimônio Cultural”, e “APAC”, entre outros. Em O Cinema e as Orquídeas, a autora nos presenteia com mais um texto: nele lança um olhar verdadeiro e poético sobre a provável demolição do prédio singelo que ainda marca a paisagem do bairro e contribui para a vida urbana mais saudável.

Em contrapartida à devastação do parque ecológico e ao destombamento do cinema, Cleia Schiavo traça paralelos e nos recorda de ações positivas para cidade, justamente trazendo a natureza para a paisagem urbana.

Boa leitura.

Urbe CaRioca


Cinema Leblon – Avenida Ataulfo de Paiva nº 880 – Leblon
Imagem: Internet




O cinema e as orquídeas

Cleia Schiavo Weyrauch *


Em tempos de revolta urbana onde o desrespeito à cidade é constante, a orquídea se impõe como a beleza e símbolo de respeitabilidade.

Incrustada nas árvores fincada em suas fissuras, paira dignamente sobre os cidadãos que passam pelas ruas já acostumados a vê-la sem qualquer espanto.  A orquídea fecha seu círculo de vida sem que ninguém a toque, os passantes admiram-na em sua beleza e forma, querem-na ali nas árvores em fileira do princípio ao fim da rua. Por que a respeitam?   Porque é um bem natural, expressão de vida e beleza e mais que tudo presença benéfica em uma dura rotina urbana onde a destruição dos bens coletivos é regular.

As orquídeas saem das serras, ganham os lares e voam pelas mãos dos porteiros para as arvores em frente aos edifícios... E lá ficam até morrerem onde as vemos.

Largada às traças, a cidade ignora seus bens coletivos, poucos a preservam e a tem como sua. Do mar à montanha, passando pelo espaço construído, sofre com o abandono das autoridades e também de seus cidadãos.

Dizem os especialistas que o espaço urbano contém um acumulado de experiências históricas de cotidianos de civilizações construídas que devem permanecer no uso que se faz da cidade. Quem não foi em sua infância ao cinema do bairro tomou sorvete e comeu pipoca? Ir a um cinema local significa não só ver um filme, mas repetir um hábito de décadas de famílias inteira; “meu pai e minha se conheceram na entrada do Cine Leblon repete um defensor do referido cinema na atual campanha pelo seu retombamento”.

A ida ao cinema significa andar a pé pelo bairro, cumprimentar os passantes, olhar as vitrines de antigas e modernas lojas e muitas vezes conversar com comerciantes instalados historicamente no bairro. Na verdade é sentir a pessoalidade do local onde se vive, ao contrário das cidades onde os condomínios são encarcerados e os shoppings refúgio daqueles que temem a violência sem se dar conta de que eles a mobilizam quando não defendem o legado da sua cidade.

Para os que não sabem, o cinema foi destombado por ordem do Prefeito da Cidade do Rio de Janeiro conivente com os interesses imobiliários da cidade. E a História viva do bairro, para onde irá? O que fazer com ela? Na verdade se deveria extrair do passado a memória sócio histórica de seus habitantes, o que melhor se produziu em termos de seus modos de vida. Ao contrário, abdicar do pertencimento ao bairro e da cidade em prol de interesses de empresas é como arrancar das árvores as orquídea que encantam a todos.

Os bens coletivos de uma cidade devem ser preservados e não destruídos.

Senhores dirigentes: Existe um bairro além dos Shopping Centers. O caso do Leblon - o cinema do qual aqui se fala - é o exemplo por excelência de um modo de vida qualitativo, amável que se fragiliza quando o excesso de shoppings e espigões domina a cidade.

Se algo pode ser feito pelo cinema e pela memória urbana do bairro e da cidade, o caminho escolhido está equivocado. Há que buscar o melhor.

Substituir o cinema por mais um edifício comum não garantirá a permanência das salas cinematográficas, nem a animação naquela parte especial do Leblon.

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*Cleia Schiavo Weyrauch é socióloga, membro do Conselho Curador da Fundação Astrogildo Pereira e Profa. Colaboradora do Programa de Pós-graduação em Politicas Publicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro

Lagoa, Rio de Janeiro - Foto: Revista Época

Postagens sobre o caso do Cinema Leblon






29/06/2014 - CINEMA LEBLON - O PROJETO REJEITADO PELO PATRIMÔNIO CULTURAL





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NOTA (atualização em 11/12/2014)
Tramitação de processo para o local - sem assunto


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