domingo, 20 de julho de 2014

JOÃO UBALDO E A “PATRULHA DA CIDADE”



Uma CrôniCaRioca Politicamente Correta





Ontem teríamos uma crônica sobre futebol, rebarba da Copa e de lembranças que a bola rolando fez aflorar. Mas, com o último artigo de João Ubaldo Ribeiro, usualmente publicado aos domingos e antecipado pelo jornal O Globo para sábado devido ao súbito e precoce desaparecimento do escritor, programação do blog também mudou.

Quem diria! Com O CORRETO USO DO PAPEL HIGIÊNICO, ao chamar a atenção, ainda daqui desta terra, para o “patrulhamento sociológico”, já lá do Céu de Itaparica o ‘baiano-leblonense’ nos animou a contar uma história passada há pouco no mesmo bairro carioca que ele escolheu para viver.


RECLAMILDA no mercado apertadinho fazendo compras, uma dupla escolhia produtos trocando ideias em voz altíssima! Um homem e uma mulher. Perturbada pelo barulho trocou de setor, mercado pequeno, não tinha jeito, mais uns passos e a todo instante esbarrava com o par decidindo aos berros que marca de café levar. Outra volta e lá estavam abrindo pacotes e comendo biscoitos, o que não é permitido. A pacata dona-de-casa fugiu para outra ala e um tempinho depois, já no ‘caixa’, escolheu a fila menor, um carrinho com poucos produtos, o dono, coitado, devia ter esquecido alguma coisinha... E voltou: eram “os donos”, justo eles, com outro carrinho lotado! não podia mais mudar de fila, as outras estavam quilométricas.

O tempo não rendia. Um passava as compras e outro voltava às prateleiras para apanhar mais mercadoria. O carrinho nunca se esvaziava - parecia o tricô da Penélope, aquela que tricotava de dia e desmanchava à noite -, as malhas, quer dizer, as compras passavam pelo ‘caixa’ e novas brotavam - tudo à luz do dia, ou melhor, das horríveis lâmpadas de luz branca -, entre biscoitos mastigados e gritos que continuavam. Finalmente, carrinho vazio, problemas na hora de pagar, mais dez minutos de espera e, UFAs! Foram embora.

RECLAMILDA, como é de sua natureza, queria reclamar. Se não haviam terminado as compras não podiam “guardar lugar” com um carrinho quase vazio, mais falso do que a Linha 4 do Metrô e chegar com outro mais cheio do que a Linha 1, que não parava de receber passageiros, ôpa, produtos! Resignada, porém, rezou uma Ave-Maria e pediu paciência aos céus para ficar calada. Por quê?

A mulher era negra, o homem claramente homossexual. Imagine só se eles arguissem pertencer às “minorias”? Por isso o medo de ser taxada de politicamente incorreta e preconceituosa, ser apedrejada pelos patrulheiros ideológicos radicais, e até de ser presa! E se fosse uma pegadinha? Ou um comportamento meramente provocativo? ‘Nestes tempos todo cuidado é pouco’, pensou . Recolheu-se e travou a língua inquieta.


RECLAMILDA queria apenas sentir-se à vontade para expressar indignação contra modos inadequados e intoleráveis por parte de qualquer cidadão. Mas, caso os dois se considerassem integrantes das ditas minorias, poderiam invocar tal ‘status’ para ser usado como salvo-conduto. E aí... Até provar que lebre não é gato...

RECLAMILDA só queria civilidade e respeito, direitos e deveres iguais para todos, independentemente de credos, cores, raças, condição social: o que se convencionou chamar de bom comportamento em sociedade.

Valeu, Ubaldo! Vá com Deus e esperamos que daqui a muitos anos quando você e se encontrarem aí do outro lado ela leve boas novidades sobre o Brasil, e que ninguém por aqui esteja controlando o uso do papel higiênico.


Viva o Povo Brasileiro!





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